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Brasileiro esteve na Coreia do Norte e conta-nos o que viu

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Brasileiro esteve na Coreia do Norte e conta-nos o que viu
Foto: Público

Em 2000, dirigentes da Coreia do Norte tiveram os primeiros encontros com representantes da Coréia do Sul e, dos Estados Unidos.

Temos publicado aqui, relatos de pessoas que visitaram a Coreia do Norte. Vários pontos de vista, mas interessantes. Aqui deixamos mais um.

(texto original não corrigido)

O professor e jornalista Marcelo Abreu também é o primeiro brasileiro a visitar o país de que se tem notícia depois do fim da guerra em 1953.

Ele está retornando ao Brasil depois de uma visita de 10 dias ao país.

De passagem por Londres, ele deu a seguinte entrevista ao repórter Thomas Pappon:

BBC - Como estrangeiro, que tipo de liberdade você teve na Coréia do Norte?

MA - Todo estrangeiro é constantemente vigiado. As poucas embaixadas estrangeiras que existem em Pyongyang ficam numa área especial, onde o acesso é controlado. E o estrangeiro que for sair daquela área é acompanhado por representantes do governo. Toda vez que saía pelas ruas era acompanhado por dois "guias". Eles me deixavam aproximar das pessoas locais, só que eles eram os intérpretes. A informação, portanto, era filtrada. Nas ruas não vi uma única pessoa com aparência ocidental. Só nos grandes hotéis que hospedam estrangeiros é que vê alguns russos. A Rússia procura manter essa presença com vistas à uma futura eventual abertura do país a investimentos estrangeiros.

BBC - Como é que esse controle é exercido sobre a população?

MA - O governo tenta passar a imagem de que a Coréia do Norte é o país mais maravilhoso do mundo, o que é uma grande mentira. O povo é submetido sistematicamente a uma propaganda, um culto à personalidade, nos moldes estalinistas. O país parou no tempo de Stalin. Em tudo o que é lugar há estátuas e monumentos. A imprensa, que é do governo, serve basicamente para louvar o sistema, o líder atual, Kim Joong-il e o líder anterior, o pai dele, Kim Il-Sung, que esteve no poder por 49 anos.

BBC - Existe algum tipo de oposição política no país?

MA - Apesar da grave situação econômica, apesar da fome, tudo indica que não há, entre a população, nenhuma forma de organização política para se contrapor ao sistema. O que se comenta é que o Kim Jong-il tem que prestar contas, de certa forma, ao poder militar, que ele representa. A Coréia do Norte é um país extremamente militarizado. Calcula-se que o exército tenha um contingente de um milhão de soldados, prontos para o combate, isso numa população de 22 milhões de habitantes. Os militares poderiam exercer uma oposição contrária à abertura do país, por exemplo.

BBC - Os Estados Unidos justificam a criação de um novo sistema de defesa antimísseis justamente com a existência do programa de mísseis balísticos da Coréia do Norte. Até que ponto o país pode representar um perigo militar para o Ocidente?

MA - A versão divulgada em Pyongyang é a inversa da que se ouve no Ocidente. Eles dizem que estão apenas tentando se defender da ameaça imperialista americana, das chamadas agressões americanas que teriam sido feitas desde a Guerra da Coréia. Os estrangeiros não têm acesso a detalhes sobre o potencial militar do país. Mas visitei a fronteira entre as duas Coréias, e é visível a presença militar nessa área. Na estrada entre Pyongyang e a fronteira, de cerca de 180 quilômetros, não vi um único veículo que não fosse militar. Dos dois lados da estrada há postos militares com soldados permanentemente em estado de alerta. Apesar do clima de distensão política, a situação na fronteira continua sendo tensa.

BBC - Analistas dizem que essa distensão é motivada por necessidades econômicas. Você sentiu que o país passa por problemas sérios como fome?

MA - A fome se agravou nos últimos quatro anos por causa de uma grande seca, e depois por causa de uma enchente. Quando estive lá, os próprios coreanos admitiam que este ano as chuvas não foram suficientes para propiciar uma safra regular de arroz e milho, que pudesse abastecer a população. Há uma grande presença de entidades internacionais, como o programa de alimentação das Nações Unidas, que estão lá tentando distribuir alimentos para a população. Mas há o temor de que esses alimentos estejam sendo desviados para os militares. Mesmo assim, apesar de algumas entidades estimarem que pelo menos um milhão de pessoas teriam morrido por causa da fome, não pude constatar nenhum clima de revolta entre a população.

BBC - O povo quer a unificação com a Coréia do Sul?

MA - Sim, sobretudo por causa das famílias divididas. Agora no dia 15 de agosto, cem famílias da Coréia do Norte irão visitar familiares na Coréia do Sul, e vice-versa. A separação forçada é sem dúvida uma chaga na história dos dois países.

BBC - O povo quer a abertura, quer ter acesso a bens de consumo?

MA - A elite, formada por oficiais do partido, já tem esse acesso. Eles viajam ao exterior e se beneficiam do sistema. Mas a grande população simplesmente não sabe o que acontece no Ocidente. Há apenas um canal de televisão que só passa propaganda do governo. Há duas rádios AM e duas FM, todas do governo, que só tocam discursos oficiais e músicas que louvam o sistema. Eu tentei pegar estações internacionais com meu rádio de ondas curtas, mas é impossível. Há uma interferência proposital no éter, colocada pelo governo. Passei dez dias completamente isolado do mundo, sem saber o que estava acontecendo no resto do mundo. Não há jornais, TV a cabo, nada, nem nos hotéis para estrangeiros. Então a população de certa forma não sabe da existência de bens de consumo sofisticados. E por isso mesmo eles não tem ânsia ou vontade de atingir um padrão de consumo mais sofisticado.

BBC - E como é o lazer na Coréia do Norte?

MA - O lazer também tem uma forte conotação política e ideológica. A primeira coisa que chama a atenção é que Pyongyang é uma cidade que não funciona à noite. Não há vida noturna. As luzes nas ruas não são acesas, para economizar energia. Cinemas e teatros, por exemplo, funcionam cedo. Seis e meia, sete da noite, já está todo mundo voltando pra casa. E mesmo os cinemas, teatros, até os circos, são utilizados para fazer propaganda do sistema. A figura do Kim Jong-il está presente em tudo. Inclusive na música local, composta de marchinhas militares e óperas, glorificando os líderes do país. Talvez seja o único país do mundo onde não há rock ou música pop. Não passa filme americano na Coréia do Norte. O Silvester Stallone poderia caminhar tranqüilamente pelas ruas, que não seria reconhecido. Alguns festivais passam filmes de países não alinhados, como Índia e México.

BBC - O que eles sabem do Brasil na Coréia do Norte?

MA - Futebol. Esporte é sempre uma coisa que penetra as fronteiras políticas. Eles tem acesso a jogos de futebol, à Copa do Mundo. Quando dizia que era do Brasil, sempre ouvia comentários sobre futebol, sobre o Pelé. O esporte mais popular é o pingue pongue. Como em todo país socialista, há um incentivo grande aos esportes.

Fonte: BBC Brasil

 

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